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O Milagre do fole

Por Valdir Portásio

Documentário desenha retrato sensível, mas irregular, da música e do Brasil

Exú, semi-árido pernambucano. Este é o ponto de partida de “O Milagre de Santa Luzia”, longa metragem  de estreia do diretor Sergio Roizemblit.  Primeiro ponto que costura toda a obra, Exú é a cidade natal de Luiz Gonzaga do Nascimento, o Gonzagão.

Capa

Como prefácio, um longo take de Dominguinhos em Exú, caminhando sobre o asfalto tocando Lamento Sertanejo abre o documentário. Música dele próprio e de Gilberto Gil, diz algo como: não vamos falar só de Gonzaga, vamos viajar pelo Brasil, mas o milagre  aconteceu aqui, nascido de Dona Santana e de Seu Januário. Gonzagão é o mote, Dominguinhos o mestre de cerimônia, o Brasil e a Sanfona os atores.

O resultado é um bonito painel do Brasil e da música. Longe, porém  de ser uma obra prima, O Milagre é simples como as personagens que retrata. Às vezes resvala em receitas comuns de  close-ups das faces enrugadas das gentes simples, dramatizando a narrativa. Outras se revela sensível às vozes pouco diatônicas de um grupo de vaqueiros flagrados na estrada, vindos de uma missa. A história foi distribuída por regiões, mas  faltou isonomia no peso dado a cada uma. Reflexo, certamente, da quantidade de material que o diretor já acumulara do trabalho “O Brasil da Sanfona” realizado com Miriam Taubkin, no qual o nordeste e o sul são privilegiados.

Apresenta bem e  sem didatismo exagerado os contrastes das representações musicais nas regiões que percorre. Perfila Dominguinhos, Mario Zan e Oswaldinho do Acordeon com espontaneidade. Deixa natural o espanto do velho sanfoneiro ítalo-paulista, já morto, com a esquisitice que o representante mais novo apresenta na sanfona sampleada Roland. “Essa coisa faz tudo!”.

Sergio Roizemblit, em entrevista ao Actors Studios, disponível na internet, afirma que documentário também é ficção. Assertiva que parece conduzir a produção e que, mesmo contrariando o mote do “é tudo verdade”que  gostam os documentaristas, torna o conjunto bonito e emocionante. Não é tudo verdade. Apesar de não haver atores profissionais, a maioria das sequências são ensaiadas, repetidas, enfim, construídas como em qualquer ficção, revela o diretor.

Algumas  cenas estão disponíveis no YouTube, como o impagável depoimento de “Pinto do Acordeon”, que diante de uma ameaçadora e afiada faca, despachadamente afofa o fole e manda um “New York, New York” no mais puro embromeichon. Um dos pontos altos.

No mais Roisemblit constrói um périplo onde não faltam imagens de ararinhas azuis, céus de anil quase dramático, closes de pés rachados. Talvez pensando no mercado externo, que valoriza o contraste entre a rudeza humana e exotismo natural da terra das palmeiras onde cantam sabiás, sivucas, gonzagas e Dominguinhos.

Um filme feliz.

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Categorias:Arte e Cultura
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